Nas sombras do golpe republicano, um jovem que queria ser rei…

Um dos personagens menos conhecidos de nossa história foi, também, um dos mais ativos no período que antecedeu o golpe militar que depôs o Imperador. Seu nome: Pedro de Alcântara Augusto Luis Maria Miguel Rafael Gonzaga de Bragança Saxe e Coburgo. Era o filho primogênito da princesa Leopoldina e de seu marido, Luis Augusto Maria Eudes de Saxe e Coburgo. Neto mais velho de D. Pedro II, Pedro Augusto que nasceu no Brasil, mas morava na Áustria, para cá retornou quando da morte de sua mãe. Tinha cinco anos.
E por que veio? Para suceder ao avô. Sua tia, a princesa Isabel até então não conseguira engravidar e D. Pedro II temia que ela não desse um herdeiro ao trono do Brasil. Louro, de olhos azuis, Pedro Augusto parecia-se muito com o avô a quem se ligou por laços de afeto e interesses comuns. Até os 11 anos, Pedro Augusto foi tratado na Corte, no colégio Pedro II onde estudava, e por toda parte, como futuro herdeiro. Seria Pedro III. Mas em 1875, nasceu o príncipe do Grão Pará. Depois de dez anos e muitas tentativas, a princesa Isabel dava a luz a um outro Pedro. A sucessão estava garantida.
Teve início um duplo processo. O do afastamento do menino do centro do poder, mas, também, o de uma conspiração lenta e discreta que tinha por objetivo colocá-lo no trono do avô. Na adolescência, Pedro Augusto já tinha um grupo de acólitos que lutavam em seu favor. Eram os “pedristas”: políticos insatisfeitos com a emergência das idéias liberais; republicanos convencidos de que a passagem para um novo regime deveria ser feita por meio de um imperador presidente à maneira de Napoleão III; proprietários de terra aflitos com o movimento abolicionista; monarquistas que não admitiam a idéia de serem governados por uma mulher; gente de toda a sorte que desaprovava o casal Isabel e Gastão D´Eu.
Quando o avô caiu doente, em janeiro de 1887 e se receou por sua vida, a pequena corte do príncipe Pedro Augusto se animou. Discutia-se muito a exclusão da tia. Com a piora do Estado de saúde do imperador, decidiram partir para a Europa em busca de tratamento. Pedro Augusto que já era alcunhado pela imprensa como “o favorito”, seguiu junto. Tanto os jornalistas quanto os diplomatas, através de sua correspondência, comentavam abertamente as divergências em torno da sucessão. No Parlamento, deputados conservadores e liberais debatiam as pretensões do chamado “príncipe conspirador”.
Na Europa, o príncipe Pedro Augusto foi cercado por Eduardo Prado, monarquista convicto e o barão de Estrela, Joaquim Manoel de Maia Monteiro, seu mentor na agenda sucessória. Estrela colhia adeptos para a causa do príncipe e delineava uma plataforma para o Terceiro Reinado. Quando interpelado sobre a inconstitucionalidade da causa, tinha uma resposta na ponta da língua: e a maioridade do imperador, não fora inconstitucional? Por que a coroa não fora passada para a primogênita de D. Pedro I, Dona Maria da Glória? O novelo de intrigas dos “pedristas’ ainda ficou mais enrolado depois da volta do imperador ao Brasil e da Abolição. Quebrado o pacto que existia entre os senhores de escravos e a família imperial, um novo jogo de forças se estabelecia.
Os republicanos se assanhavam, com suas fileiras engrossadas pelos barões de café ressentidos. O grupo “legitimista” de Isabel, cerrava fileiras pois, passada a euforia das festas de maio de 1888, os ataques choviam. Já o príncipe Pedro Augusto continuava circulando em busca de apoios e reconhecimento popular. Bonito e jovem, era sempre aplaudido por grupinhos à porta do palácio Leopoldina, sua residência. Tinha o apoio de uma parte da imprensa, da opinião pública e de alguns republicanos.
Ao final daquele ano, os fatos se aceleraram. Os distintos grupos tomavam suas posições. Dentro dos monarquistas, havia os que apoiavam um III Reinado com Isabel e o Conde d´Eu. Eram os legitimistas. Havia outra coligação, que lutava pela candidatura do príncipe: os pedristas. Ambos os grupos sabiam que o Imperador oscilava na escolha de um dos sucessores. Embalados pela consagração da Abolição e pelas festas feitas quando do retorno da família ao Brasil, os dois grupos achavam que tinham condições de se impor. Eles pareciam alheios às manifestações republicanas. A vantagem do grupo que apoiava o jovem príncipe era de que esse oferecia uma solução para a transição de regime monárquico, ao outro, republicano. D. Pedro Augusto não se importava de começar imperador e acabar presidente da República do Brasil, fazendo a tão desejada transição.
Passado o baile da Ilha Fiscal, em homenagem à marinha chilena e às vésperas do golpe, corria o rumor insistente de que no dia do aniversário de D. Pedro II, 2 de dezembro, este abdicaria. Sabedor dos movimentos de reação republicana e ciente de que sua filha não teria apoio para sucedê-lo, só lhe cabia pedir ao neto que assumisse. Havia mesmo quem dissesse que, sentindo a situação do Império fragilizada, ele abdicaria em favor de Isabel e esta abdicaria em favor de Pedro Augusto. No dia 14 de novembro, esta era a manchete do jornal “A Cidade do Rio”: “O imperador vai abdicar no dia 2 de dezembro, dizem todos”.Veio o dia 15, seguido do exílio para a Europa e em Portugal, da morte da imperatriz Dona Teresa Cristina. No velório da avó, Pedro Augusto era apontado como “aquele que vai ser imperador”. Contudo, o afastamento do Brasil, o afastou da razão: o jovem príncipe, dado a acessos de melancolia, “enlouqueceu”.
Durante anos, exilados na Europa mas apoiados em partidários, os Bragança pensaram em voltar ao Brasil. Tanto mais quanto na pátria havia gente que se batia nas ruas pela família imperial. Motins, empastelamento de jornais, prisões na Ilha Grande, enfim, os adeptos do regime não eram poucos e reagiram à proclamação da República.Vários motivos, contudo, explicam o insucesso da Restauração. Não tendo uma sólida doutrina monarquista sobre a qual se apoiar, os restauradores se definiam exclusivamente por oposição aos republicanos. Também não era aceito, sem conflitos, o princípio da monarquia de direito divino. A princesa Isabel, “redentora dos escravos”, era vista como causadora da ruína das fortunas que sustentavam o regime. Os grupos monarquistas estavam dispersos e jamais se interessaram por movimentos de caráter popular que viessem apoiá-los. O silêncio em que mergulhou a família imperial no exílio, o fato de nunca terem ajudado financeiramente a causa da Restauração, ajudou a solapar o entusiasmo dos monarquistas no país. Quanto ao grupo pedrista, ele não teve sucesso. E Pedro Augusto, o belo príncipe que conspirou, foi internado numa casa de saúde, onde, enrolado numa camisa de força, se proclamava “imperador do Brasil”. De lá só saiu quarenta e um anos depois. Morto.

Anúncios

De cotas e diversidade cultural

Nas ruas das grandes cidades brasileiras já é possível ler em muitas camisetas “100% negro!”. Desde os anos 80, teve início um debate interno sobre a diversidade cultural e racial do brasileiro. A maior parte destes debates contaminou à consciência negra pela brecha da cultura popular. A música e as escolas de samba tiveram, nesse sentido, um importante papel mobilisador. A busca da “pureza africana” acompanhou-se também de uma crítica feroz ao sincretismo. Finalmente, a aprovação de cotas para os afro-brasileiros na universidade e no funcionalismo público acabou por negar a fábula do encontro harmonioso entre as três raças. Durante muitos anos, os negros aceitaram a ilusão de que a mestiçagem poderia ser a solução para a discriminação racial, diluindo a cor em casamentos mistos. Mas a questão da raça está também ligada à da posição social: quanto mais sobem na escala social, mais negros se tornam brancos.
O termo “multiculturalismo”, hoje, tão em moda, designa tanto um fato (sociedades são compostas de grupos culturalmente distintos) quanto uma política (colocada em funcionamento em níveis diferentes) visando à coexistência pacífica entre grupos étnica e culturalmente diferente. A doutrina multiculturalista avança essencialmente a idéia que as culturas minoritárias são discriminadas e devem merecer reconhecimento público. Para se realizarem ou consolidarem, singularidades culturais devem ser amparadas e protegidas pela lei. É o Direito que vai permitir colocar em movimento as condições de uma sociedade multicultural.
A pergunta a fazer é: será que os fins justificam os meios? O princípio da discriminação positiva não se choca com as exigências de igualdade do Direito? Caminhamos no sentido da justiça social? Sabemos que nem todos os membros das minorias são desfavorecidos e os que sabem aproveitar as vantagens são raramente os mais desfavorecidos. Por outro lado, existem grupos da população realmente desfavorecidos que não pertencem à minorias étnicas. Neste caso, todas as diferenças podem ser defendidas? Sabemos que há riscos do tipo: como proteger a minoria das outras minorias, os explorados dos excluídos? A quem cabe a legitimidade de atribuir uma identidade? Não é o indivíduo o único capaz de escolher sua, ou suas identidades de pertença? Mais ainda, quando pensamos que identidades individuais são construídas em oposição ao grupo de pertença.
Nas democracias pluralistas, assistimos a um movimento generalizado de incremento das identidades particulares. Minorias, populações autóctones, grupos de migrantes e imigrantes manifestam seu desejo de reconhecimento cultural. “Viver junto”, é uma questão cada vez mais premente. O processo de reafricanização do Brasil talvez melhore o status social, artístico ou religioso de muitos de nós. Mudanças, contudo, dependem diretamente da redistribuição de renda e do fim das desigualdades imensas entre ricos e pobres. Ai, sim, estaremos prontos para construir uma democracia inclusiva e inter-cultural.

Um nome para este tempo

O jornal O Globo, em seu caderno Prosa & Verso do dia 22/08, convocou seis autores para escreverem sobre “Um nome para este tempo”. Junto com Adauto Novaes, Francisco carlos Teixeira da Silva e Ronaldo ainfas, entre outros, eis o meu texto.

Ao contrário do que se apregoou, a história “não teve fim” e o mundo se consolidou na integração de fluxos econômicos, financeiros e de informação. O Direito e a Corte Penal Internacional lançaram suas bases. Hollywood e Internet triunfaram! O “Pop” e o “Rap” aceleraram práticas de consumo, consolidando a noção de que não há hierarquia entre os diferentes níveis de cultura. Enquanto marcas como Nike ou Coke se globalizaram, as tradições locais se afirmaram em resposta. Políticas anti-discriminação asseguraram as mais variadas tendências étnicas, sociais e sexuais. O caráter de hibridação ou mestiçagem passou a ser visto como sinônimo de inovação, vide Obama. As instituições religiosas entraram em declínio, mas a experiência coletiva do sagrado e a imaginação religiosa ganharam caminhos novos. O trabalho se relativizou e outras esferas da existência – a familiar, a amorosa, a cultural – ganharam importância. A família, também, mudou: seus membros não têm mais papeis definidos. Homens não se sentem mais humilhados em trocar fraldas e o casal, antes “fusional”, resultou em nova equação: 1+1=3. Cada qual com sua independência, o terceiro lugar sendo aquele das agendas comuns. As escolhas individuais tomaram o lugar dos destinos coletivos. Frente à aceleração das mudanças, surgiram duas palavras novas: depressão e precariedade. O indivíduo desta época ganhou novos rostos: o do hedonista, movido por auto-celebração; o cidadão voluntarista e heróico; a vítima de problemas de identidade e o indivíduo estilhaçado, em busca de si. Todos correndo atrás do culto da felicidade. O bem estar tornou-se norma de vida. À infelicidade de não ser feliz, somou-se à vergonha de não se ter felicidade. Os conflitos da época, ganharam um novo olhar: o Estado-Nação, antes ator único na luta internacional, cedeu lugar a uma multiplicidade de atores que agem em função de registros políticos próprios: veja-se o Kosovo, o Congo, a Palestina. Assistiu-se a emergência de novas guerras ligadas à máfia das drogas ou ao terrorismo internacional. A Ética voltou à pauta: frente à corrupção e a venalidade propugnou-se a moralização da vida pública. Afinal, a boa ética não é a solução para a má política? O grande desafio destes tempos? Conciliar as políticas de reconhecimento da diferença com as de redistribuição de riquezas e, por meio delas aceder a uma existência feita de plenitude, significação e dinamismo.

Mary del Priore – sócia honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Fim de férias…

Época de férias sempre faz pensar em ar livre, sol e esporte. E daí lembrar das atividades físicas, e de que elas, também, têm uma  história. Elas começam como ‘jogos”, na Grécia Antiga, evoluindo para o que se convencionou chamar de “sport”, na Inglaterra. No Brasil, o desporte se desenvolveu, durante o século XIX. Nesta época foram criados clubes e calendários de competição. Surgiram especialistas que anunciavam os futuros técnicos e bancas, com lucrativas apostas. Já, na segunda metade do Oitocentos, a imprensa mencionava as atividades que reuniam grupos de diversas origens sociais. Elas foram importadas pelos filhos da elite que faziam seus estudos na Europa e por imigrantes, destacando-se, entre eles, os ingleses. Na mesma época, o esporte se tornou importante estratégia educacional, integrando o currículo de escolas protestantes ou católicas.  Muitos de nossos escritores como Machado de Assis, Raul Pompéia, Arthur de Azevedo ou João do Rio escreveram sobre o tema.

Só que o termo cobria, então, as mais variadas atividades: desde rinhas de galo à capoeira. De lutas de boxe a corridas de cavalo nas praias ou raias de areia. De corridas de velocípede – embrião do ciclismo -, ao remo e deste, às touradas. Dos banhos de mar ao cricket e ao tênis, desenvolvido pelos britânicos. Ou a patinação cujos “rinks”, com respectivos instrutores para ensinar truques sobre o gelo, existiam de 1820.

Um dos “sports” que mais encheu a página dos jornais foi o turfe. Em 1851, o major João Guilherme Suckow, que tinha vindo ao Brasil para organizar o transporte urbano na base de carruagens e charretes puxadas por cavalos e burros, inaugurou um “club de corridas”, na Corte, Rio de Janeiro. É dele a idéia de promover benefícios e incrementar a prática das corridas de cavalo, mas, também de importar a moda em voga na França e Inglaterra.

 A inauguração do Prado se fez na presença da família imperial, – D. Pedro II e D. Teresa Cristina – e mais quatro mil pessoas de diferentes camadas sociais e ambos os sexos. A cidade, então, se expandia em direção às zonas Nortes e Sul, multiplicando hipódromos. Havia os ‘nobres’, como o Derby Club (Maracanã) e o Jockey Club (Engenho Novo), e locais de corridas mais populares, como o Prado Guarani, em São Cristóvão, conhecido pelos cavalos peludos e pangarés que aí disputavam. As antigas touradas e rinhas vão sendo lentamente substituídas por novas modalidades de entretenimento nas quais o jogo e a aposta, contudo, continuavam presentes.

Olavo Bilac assim comentava o evento: “Às quintas-feiras e domingos, abriam-se ao povo, três, quatro, cinco prados de corridas. Os bondes levavam gente nos bancos, nos estribos, nas plataformas, nos tejadilhos. As locomotivas da Central arrastavam comboios de dez a doze vagões atulhados de uma multidão risonha e barulhenta”.

            Outra moda desportiva veio com o remo. De início, as corridas eram realizadas por  catraieiros e pescadores que, no fundo da baía de Guanabara, conduziam pessoas para contemplar o mar. Em 1846, por exemplo, o Jornal do Commércio noticiava a competição entre as canoas Lambe-Água e Cabocla, nas águas do Rio de Janeiro: “grande era a ansiedade entre as rivais, a qual se decidiu a favor da cabocla, cuja guarnição foi carregada em triunfo pela mocidade alegre e festiva”. Para esses grupos, contudo, a atividade não estava ligada a hábitos higiênicos, nem à conservação da saúde, como hoje, mas, à diversão. Já na segunda metade do século, passa a ser sinônimo de modernidade, associado a um “exercício phísico” ligado  juventude altiva, educada física e moralmente e pronta conduzir a nação ao progresso. Até disputas em favor da Abolição dos escravos foram realizadas.

A ocupação das praias, antes verdadeiros lixões, ajudou muito ao desenvolvimento dos esportes. E os banhos de mar, também, permitiram a idealização de corpos esportivos e saudáveis.

O sentimento é geral: Brasília dá nojo!

            O sentimento é geral: Brasília dá nojo! Dá asco. Não a cidade arrancada do areal por Lucio Costa e Niemeyer, mas o que ela representa: nossa vida política. Lá tudo é falso. Falsos remédios para falsos problemas, falsos sorrisos, falsas palavras, falsos projetos, falsas promessas, falsos seios, falsos dentes, falsos homens nos braços de falsas mulheres, falsa democracia nas mãos de falsos políticos. Brasília sinaliza como o espaço  onde alguns gozam do privilégio de escapar às regras do Direito. Onde muitos fazem recuar, sem o esforço que não o exigido pela conivência dos colegas, o primado da ética. Ela alimenta uma política baseada em regras que definem quem e quando poderá se valer das vantagens de não sofrer castigos. Regras implícitas e não escritas que são confortadas pela prática sistemática da impunidade. Regras, sublinhe-se, concretas em relação aos códigos da ética mais elementar, hoje, cada vez mais abstratos. Brasília representa, enfim, para nossa tristeza, a derrota da Lei, a Justiça adormecida.

            Se a corrupção parece apenas um problema institucional que exige respostas graças à aplicação de reformas, para muitos de nós, ela ainda é um problema moral. O papel das lideranças políticas é o de encarnar valores que as obriguem a se engajar pessoalmente num programa concreto que previna, dissuada, detecte e sancione a corrupção. Programa que barre a transferência dos bens públicos para as contas privadas. Mas nossa classe política completamente desacreditada, enfurnada em escândalos financeiros e outros, bem ao contrário só pensa em defender interesses particulares. Nenhuma  dimensão moral à vista. Palavras do vocabulário ético, escritas com letras maiúsculas, como Sinceridade, Igualdade e Justiça são ignoradas olimpicamente. Pegos em flagrante delito de mentira, os políticos negam com convicção infantil, posando de vítimas.

            A classe parece ignorar também que o imaginário da corrupção tem uma dialética própria. A gente começa a acreditar que a corrupção está em toda a parte. Depois nos convencemos que todos os políticos são corruptos. Por fim, entendemos que o objeto mesmo de todo o governo é a corrupção.

            Mas esta Brasília que inspira asco, onde tudo é falso, existe, também, para lembrar que somos todos, potencialmente, falsários. Falsários pois nos acomodamos numa espécie de honesta passividade, como se esta traduzisse uma guerra silenciosa. Nossa falsa luta consiste em criticar, de longe e sem muito esforço, a corrupção que se eterniza. Sentados diante de nossas televisões vivemos o paradoxo de ter acesso a todas as informações –  e este é um dos direitos de cidadania – sem conseguir, contudo, reagir. Afinal, a telinha despolitiza o político, como já justificou um filósofo. Olhamos o espelho deformado do mundo em que vivemos, nos contentando da imagem distorcida que aí vemos. Afinal, não somos nós. São eles. Engano.

            Somos nós também. Esquecemos que cabe a nós lutar contra a banalização da opinião pública. Cabe a nós restabelecer, de alguma forma, as regras do Direito ditadas pelos textos da Lei. Cabe exclusivamente a nós lutar contra a pequena corrupção que já invadiu nosso cotidiano na forma de “dinheirinhos” para o guarda na frente da escola, para o fiscal de obras, o funcionário do cartório, ou agente público cuja baixa remuneração convida e corromper e a ser corrompido. Temos que acordar antes de começar a exibir, como em Brasília, falsos sorrisos, falsos dentes, falsas promessas.

A nudez e seus significados no passado

.

1500: Renascimento na Europa e chegada dos portugueses ao Brasil. Na pintura, ao colocar o homem no centro do mundo – e não mais Deus – o Renascimento descobre o nu. Sinônimo de erotismo? Não. Isto significa que as palavras, os conceitos e seus conteúdos mudam, no tempo e no espaço. O que é erótico, hoje, não o era para nossos avós.
Comecemos por um exemplo bastante conhecido. Ao desembarcar na então chamada Terra de Santa Cruz, os portugueses impressionaram-se com a beleza de nossas índias: pardas, bem dispostas, com cabelos compridos, andando nuas e “sem vergonha alguma”. A Pero Vaz de Caminha não passaram desapercebidas as “moças bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos compridos pelas espáduas”. Os corpos, segundo ele, “limpos e tão gordos e tão formosos que não pode mais ser”. Os cânones da beleza européia se transferiam para cá, no olhar guloso dos primeiros colonizadores.
Durante o Renascimento, graças à teoria neoplatônica, bondade e beleza, caminhavam de mãos dadas. Vários autores, como Petrarca, por exemplo, trataram desse tema para discutir a correspondência entre Belo e Bom, entre o visível e o invisível. Não é a toa que nossas indígenas eram consideradas, pelos cronistas seicentistas, criaturas inocentes. Sua nudez e despudor eram lidos numa chave de desconhecimento do mal, ligando, portanto, a “formosura” à idéia de pureza. A questão da sensualidade não estava posta aí.
Nuas em pêlo, as “americanas” se exibiam, também, nas múltiplas gravuras que circulavam sobre o Novo Mundo. Os seios pequenos, os quadris estreitos, a cabeça coroada por plumagens ou uma coroa de frutas tropicais, os gravadores do Renascimento as representavam montadas ou sentadas sobre animais que os europeus desconheciam: o tatu, o jacaré, a tartaruga. Mas aí, a nudez não era mais símbolo de inocência, mas, de pobreza. Pobreza de artefatos, de bens materiais, de conhecimentos que pudessem gerar riquezas. Comparadas com as mulheres que nas gravuras representavam o continente asiático ou a Europa, nossa América era nua, não porque sensual, mas porque despojada, singela, miserável. As outras alegorias se exibiam ornamentadas com tecidos finos, jóias e tesouros de todo o tipo. Mesmo a África, parte do mundo mais conhecida no Ocidente cristão do que a América, trazia aparatos e mostrava-se gorda – sinônimo de abundância e beleza, numa época em que “gordura era formosura”.
O retrato das americanas, além da magreza e da nudez, ostentava sempre um signo temido: os ossos daqueles que tinham sido devorados nos banquetes antropofágicos. Nudez, pobreza e antropofagia andavam de mãos dadas. As interpretações, então, se sobrepunham: passou-se da pureza e inocência à pobreza e horror desta gente que comia gente. Pior. À medida que os índios resistiam à chegada dos estrangeiros, aprofundava-se sua satanização. Para combatê-los ou afastá-los do litoral, nada melhor do que compará-los a demônios. A nudez das índias, estava, pois, longe de ser erótica.
Desde o inicio da Colonização lutou-se contra a nudez e aquilo que ela simbolizava. Os padres jesuítas, por exemplo, mandavam buscar tecidos de algodão, em Portugal, para vestir as crianças indígenas que freqüentavam suas escolas e os adultos catequizados: “Mandem pano para que se vistam”, pedia padre Manoel da Nóbrega em carta aos seus superiores. Aos olhos dos colonizadores, a nudez do índio era semelhante à dos animais; afinal, como as bestas, ele não tinham vergonha ou pudor natural. Vesti-los era afastá-los do mal e do pecado. O corpo nu era concebido como foco de problemas duramente combatidos pela igreja, nestes tempos: a luxúria, a lascívia, os pecados da carne. Afinal, como se queixava padre Anchieta, alem de andar peladas, as indígenas não se negavam a ninguém.
Sendo a roupa, o envelope do corpo, como seria andar nu? Com a pele em contato com o vento e o sol, as partes vergonhosas expostas, os índios inspiraram ao padre Anchieta, tiradas de muito humor: “de ordinário andam nus e quando muito vestem alguma roupa de algodão ou de pano baixo e nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem com gorro, carapuça ou chapéu na cabeça e o mais nu; outras vezes trazem uma roupa curta até a cintura sem mais outra coisa. Quando casam vão às bodas vestidos e à tarde se vão passear somente com o gorro na cabeça sem outra roupa, e lhes parece que vão assim mui galantes”.
Mas que significado teria o nu, na Idade Moderna? Havia, então, uma grande diferença entre nudez e nu. A primeira, referia-se àquelas que fossem despojadas de suas vestes. A segunda, remetia, não à imagem de um corpo transito e sem defesa, mas ao corpo equilibrado e seguro de si mesmo. O vocábulo foi incorporado, no século XVIII, às academias de ciências artísticas onde a pintura e a escultura faziam do nu o motivo essencial de suas obras.