Nós e o Tio Sam: outro olhar sobre a Ditadura

Todos sabemos que o golpe militar que derrubou o governo de João Goulart, com apoio da classe média brasileira, contou com muitos protagonistas. O governo americano foi um deles, como se pode constatar pela multiplicidade de informações que se encontram nos arquivos e documentos da CIA, FBI entre outros. Nesta época, os cidadãos americanos se dividiram em dois grupos: os que ajudaram um lado e os que ajudaram o outro. Contudo, é pouco conhecida a participação de ativistas dos EUA que lutaram contra a ditadura no Brasil. Ativistas que esconderam e deram asilo a refugiados políticos, que denunciaram torturas e que combateram o apoio norte-americano aos militares brasileiros.
Esse é o tema do mais novo livro de James Naylor Green, conhecido brasilianista e importante ativista dos direitos LGBT, além de professor na renomada Brown University, de Rhode Island, perto de Nova York. Com larga experiência no tema, – pois James foi militante contra a Guerra do Vietnã e as ditaduras latino-americanas, – em seu novo livro “Apesar de vocês – oposição à ditadura brasileira nos Estados Unidos”, ele dá rosto e voz aos companheiros que lá na terra do Tio Sam se bateram contra o regime de exceção.
E quem foram eles? Muitos missionários e clérigos, católicos e evangélicos, além de americanos e “brazucas”, ex-moradores do Brasil. De início, ainda em plena Guerra Fria, auge do conflito no Vietnã e ao som das guitarras de Woostock, coube ao presidente Lyndon Johnson ajudar militar e economicamente o governo. O presidente Costa e Silva foi, inclusive, recebido na Casa Branca antes de tomar posse. Em 1969, Richard Nixon ganhou as eleições e prosseguiu na mesma política de aliança com os militares brasileiros. Só a partir de 1972/73 é que as coisas começaram a mudar, com o partido democrata fazendo espaço para o clamor daqueles que lutavam em favor dos direitos humanos. Esses mesmos militantes foram também responsáveis por informar o público e os congressistas americanos sobre o que se passava “down there”, lá embaixo, no quintal latino. Eleito, o democrata Jimmy Carter passou a pressionar o governo militar, ameaçando, inclusive, com o corte de ajuda ao país e fazendo um discurso duríssimo sobre a violação dos Direitos Humanos no Brasil.
Nem todos eram de esquerda entre os integrantes do movimento. Havia esquerdistas mas, também, muitos liberais. O maior exemplo foi dado por um renomado historiador liberal, Thomas Skidmore, autor de várias obras sobre nossa história, inclusive de dois renomados volumes sobre política, De Getúlio a Castelo e De Castelo a Tancredo. Em 1970, quando da realização de um Congresso de estudos latino-americanos em Washington, Skidmore apresentou uma moção de repúdio ao governo brasileiro, acusado de torturar presos, prender inocentes e desrespeitar direitos constituídos legalmente. A punição não tardou. O historiador ficou proibido de entrar no Brasil.
James Green revela como a experiência da luta por Direitos Civis na América Latina, acabou por alimentar a participação dos americanos em outros combates, sempre segurando o bordão do pacifismo. E isso até na China. Bandeira das mais respeitáveis, a batalha contra a tortura mobilizou a classe média americana que segundo o autor, se identificava com os torturados brasileiros, na sua maioria, membros, eles, também, de nossa classe média urbana. Uma tal mobilização durou até os anos 80, quando das grandes greves operárias no ABC de São Paulo quando os mesmos ativistas conseguiram assinaturas de sindicalistas americanos contra a prisão do então líder sindical, Lula.
Esses também foram anos em que os EUA baixou um violento embargo contra Cuba – “el bloqueo”, como é conhecido foi decretado por Bush-pai em 1962. Curioso que essa mesma classe média americana, liberal e esquerdista que lutou contra a tortura no Brasil, tenha ignorado a agonia de presos políticos e homossexuais na ilha comunista. Assim como logo depois do ataque às Torres Gêmeas, apoiou George Bush e os horrores da prisão de Guantánamo. Só mesmo outro livro e a história para explicar essa lógica. Lógica semelhante a de outro personagem do episódio analisado por James Green, o falecido presidente Figueiredo que costumava dizer: “uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.”

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2 Respostas para “Nós e o Tio Sam: outro olhar sobre a Ditadura

  1. Enquanto isso no Brasil do século XXI, os golpistas conseguiram outra vitória.

    “Por 7 votos a 2, o Supremo decidiu que a Lei da Anistia é ‘ampla, geral e irrestrita’ e que, portanto, beneficiou a todos que de alguma forma participaram do regime. Prevaleceu o voto do ministro Eros Grau, ao defender que a anistia no Brasil foi ‘bilateral’ e fruto de um acordo político feito pela sociedade brasileira”.

    Puseram no mesmo caldeirão torturadores e torturados, enquanto isso no congresso, o dep (capitão) Bolsonaro mantém um cartaz que debocha da cara do povo e das familias de pessoas enterradas em valas comuns no Araguaia.

    Uma vergonha (mais uma) nacional.

  2. Genial… adorei os esclarecimentos!

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