A UNIBAN de novo…

Muito se tem falado sobre o caso de quase linchamento da aluna da UNIBAM em São Paulo. A atitude dos estudantes, considerada chocante ou selvagem, instigou vários profissionais. Jornalistas, psicólogos e sociólogos se perguntaram: por quê? Reação de massas, porque vivemos numa sociedade de massas, disseram uns. Necessidade de mais feminismo, afirmaram outros. Insuficiência individual traduzida em agressividade coletiva, intuíram outros tantos. Aqui vai a interpretação de uma historiadora.
Nas sociedades patriarcais do passado, problemas que hoje consideramos de ordem pessoal, quer em se tratando da intimidade do corpo ou do coração, eram resolvidos pela comunidade. Era ela que controlava todos os comportamentos, vigiando tudo que se considerava inadequado. E esse direito de controle sobre o grupo incidia sobretudo nos comportamentos femininos. Na herança machista do Ocidente cristão, a mulher era a guardiã de muitos valores de honradez e pureza. Quando essa função não era preenchida, o seu “mau comportamento” ficava publicamente assinalado. Sua honra, manchada.
Exemplos? A tradição de fazê-la montar numa mula, com o vestido baixado até a cintura, o corpo coberto de mel, as mãos atadas, para ser picada por insetos e exposta a insultos, foi corrente na Europa, e em Portugal, até o século XVII. Ela assinalava publicamente a esposa adúltera. As “honestas” eram convidadas a açoitá-la e cuspir sobre ela. Mulheres mais velhas ou viúvas que transgrediam, casando com rapazes mais moços, eram submetidas a assuadas e panelaços à porta de casa, durante a noite. A perseguição às bruxas, durante o Renascimento e às solteironas, no final do século XIX, ambas vistas como infratoras, foi comum. Afinal não estavam exercendo o padrão normal de serem “mães & esposas”. Até bispos e padres, em seus sermões, pediam que a comunidade controlasse as mulheres de vida duvidosa e mesmo o corte de cabelos femininos era proibido sem autorização do marido ou do pai. A mulher sempre foi vista como uma fonte de mal e diabolizada por ameaçar os homens. Colocá-la dentro das regras, era, portanto, lei.
Essa mentalidade nunca nos abandonou. E nunca abandonou, sobretudo, as mulheres brasileiras. Apesar das conquistas na vida pública – mais e mais mulheres se destacam como artistas, políticas ou empresárias – na vida privada elas continuam marcadas por formas arcaicas de pensar. É em casa que elas escondem seus sentimentos de vigilância, falando mal da vida alheia, sobretudo de quem não está “dentro das regras”. E é em casa que elas alimentam o machismo: muitas protegem filhos que agridem outras mulheres, não os deixam lavar louça ou arrumar o quarto: “Homem não nasceu para isso”. Outras calam sobre comentários machistas de seus companheiros e incentivam piadas sobre a “burrice” feminina. Outras ainda cultivam cuidadosamente o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que eles assim se sentem mais potentes, e de ser chamadas de xuxuzinho, docinho ou gostosona, tudo o que seja convite a comer. O título de cachorra é um elogio. Mulher forte? É sapatona! A “Melancia”? Linda! Acreditam que a feminilidade é um estado natural, a ser conservado e que todas as despesas aí investidas, até cirurgias que acabem por desfigurá-las, são um bom negócio. Muitas mulheres são coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. Na TV, aceitam temas apelativos e não se incomodam que os mesmos encham a cabeça de suas filhas .
Conclusão: há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres, por elas mesmas. Este comportamento ajuda, certamente, a que se continue a cavar um grande fosso entre homens e mulheres, explicando em parte que o machismo e o excessivo controle da vida alheia tenham se enraizado dentro das próprias mulheres. E que é, provavelmente, em casa, que jovens como os alunos da Unibam aprendem a “jogar a primeira pedra”.

Anúncios

4 Respostas para “A UNIBAN de novo…

  1. Artigo brilhante, dá gosto ler.
    Que bom que existe gente como vc.

  2. É importante salientar a importância feminina em toda nossa história. Nos tempos de Grécia e Roma, por exemplo, mesmo não participando ativamente de decisões sociais ou econômicas, as mulheres exerciam um grande e importante papel aconselhando seus maridos e dando seus pontos de vista em relação a alguns assuntos, o que, em alguns casos, acabavam influenciando na tomada das decisões dos mesmos.

  3. Grande verdade professora Mary, nossa sociedade parece ter um prazer insano de regredir, ou mesmo se fazer de miópe frente as circunstancias adiversas.
    Obrigado por brindar o meio historiografico brasileiro com temas tão pertinentes, parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s