O último livro de André De Botton… que seja mesma o último.

Desde que Freud anunciou que a receita da felicidade era feita de realização no trabalho & na vida amorosa, o antigo papo bíblico de “amassar o pão com o suor do rosto” foi varrido para baixo do tapete. Para a maior parte de nós, o trabalho é o prazer que detestamos ou a prisão sem a qual não saberíamos aonde ir. Podemos fantasiar sobre ganhar milhões na loteria, mas a verdade é que mesmo os muito ricos – penso em Bill Gates, JK Rowling, Rupert Murdoch – nunca pararam de trabalhar. Faço essa pequena introdução para falar do novo livro do filósofo suíço e milionário radicado em Londres, André de Botton, “Prazeres e desprazeres do trabalho”. Muitos o vêm como um intelectual. Mas eu diria que não é exatamente a originalidade do seu pensamento que faz dele um sucesso. E sim a maneira elegante como diz platitudes. Ou como escreve repetindo obviedades extraídas de conhecidos pensadores gregos ou franceses, dando-nos a impressão de que as estamos ouvindo pela primeira vez. Agora, em novo livro sobre o trabalho, De Botton enuncia mais uma evidência: “as pessoas trabalham hoje mais do que nunca e vivem uma rotina difícil de administrar. O animal humano precisa de descanso…de uma siesta”. Profundo, não?
Pois não é que baseado em mais uma de suas constatações insignificantes, De Botton, filho de um riquíssimo financista, se autoriza a julgar fúteis inúmeros empregos e aqueles que os exercem?! E por quê? Pois tais empregados estariam dissociados do produto final que elaboram. Nos velhos tempos – argumenta – um padeiro fazia biscoitos. Hoje, quem faz a legenda da embalagem de biscoito se esquece de comê-lo. E por quê? Sobretudo porque De Botton acredita que “há certo mistério para conseguir que queremos”. Ou que “falta um sistema de educação capaz de revelar a capacidade das pessoas”. Ou que há um desperdício de material humano como existe o desperdício de recursos naturais.
Em busca de um olhar mais profundo sobre o mundo do trabalho, De Botton acompanha, por exemplo, um atum, da hora em que é pescado no Atlântico Norte, à barraca do feirante. E, de lá, na sacola de uma dona de casa, ao prato. Ou visita uma fábrica de biscoitos ou o escritório de um contador, “cheirando a repolho cozido”, para chegar à melancólica conclusão de que a brilhante Revolução Industrial não alterou a solidão do ser humano. Máquinas e instrumentos de precisão só separam homens do produto de seu trabalho, alimentando sua alienação. Indagado sobre se, sem jamais ter trabalhado, poderia escrever sobre o tema, ele respondeu candidamente: cabe aos leitores decidir. Depois há o papel da imaginação, não? De Botton explica que, como não apresenta lições, fez um livro “impressionista” e não teórico. E só insiste em que o trabalho é uma forma de nos manter distante do pânico trazido pela idéia da morte.
A maior parte dos críticos de grandes jornais ignora as banalidades ditas com algum charme por De Botton. Alguns dizem mesmo que a leitura de qualquer um de seus livros, desencoraja automaticamente a leitura dos outros. Como gosto não se discute, vou me prender a um fato que envolveu o lançamento do seu livro nos EUA. E que mais nos elucida sobre o homem, do que sobre o autor.
O New York Times publicou uma resenha de ironia devastadora sobre “Prazeres e Desprazeres do Trabalho”. O jornalista Caleb Crain sublinhou a mesmice, o snobismo, a candura e a superficialidade de suas conclusões. Resultado? O elegante De Botton perdeu as estribeiras. No seu blog, reagiu, soltando sobre o jornalista as maiores injúrias: “Você matou meu livro nos EUA… Dois anos de trabalho perdidos por causa de artigo de 900 palavras…Vou detestá-lo até meu último dia. Desejo-lhe o pior do que possa acontecer a alguém e vou observar este processo com uma alegria maligna”, etc… Interpelado por seus leitores chocados, no mesmo blog, De Botton continuou os ataques: são acusações dementes. O perdão não seria uma opção diante de uma provocação tão grande. O fosso, segundo ele, é muito grande, entre seu trabalho – modestamente brilhante – e a crítica, incapaz de reconhecê-lo. Enfim, o autor que dá lições sobre a arte de ser feliz, é incapaz de se controlar diante de críticas que, afinal, fazem parte da história literária. Ninguém deixa de escrever o que escreve por causa delas… Para piorar, depois de todo este barulho no blog e da chuva de comentários que caiu sobre sua cabeça, De Botton usou o twitter para se desculpar. A mensagem era a seguinte: “Errei, perdi o controle e agora, estou com vergonha”…Como afirmou outro jornalista, “É melhor alguém dizer a De Botton para parar…”. De escrever”, é claro.

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