Um nome para este tempo

O jornal O Globo, em seu caderno Prosa & Verso do dia 22/08, convocou seis autores para escreverem sobre “Um nome para este tempo”. Junto com Adauto Novaes, Francisco carlos Teixeira da Silva e Ronaldo ainfas, entre outros, eis o meu texto.

Ao contrário do que se apregoou, a história “não teve fim” e o mundo se consolidou na integração de fluxos econômicos, financeiros e de informação. O Direito e a Corte Penal Internacional lançaram suas bases. Hollywood e Internet triunfaram! O “Pop” e o “Rap” aceleraram práticas de consumo, consolidando a noção de que não há hierarquia entre os diferentes níveis de cultura. Enquanto marcas como Nike ou Coke se globalizaram, as tradições locais se afirmaram em resposta. Políticas anti-discriminação asseguraram as mais variadas tendências étnicas, sociais e sexuais. O caráter de hibridação ou mestiçagem passou a ser visto como sinônimo de inovação, vide Obama. As instituições religiosas entraram em declínio, mas a experiência coletiva do sagrado e a imaginação religiosa ganharam caminhos novos. O trabalho se relativizou e outras esferas da existência – a familiar, a amorosa, a cultural – ganharam importância. A família, também, mudou: seus membros não têm mais papeis definidos. Homens não se sentem mais humilhados em trocar fraldas e o casal, antes “fusional”, resultou em nova equação: 1+1=3. Cada qual com sua independência, o terceiro lugar sendo aquele das agendas comuns. As escolhas individuais tomaram o lugar dos destinos coletivos. Frente à aceleração das mudanças, surgiram duas palavras novas: depressão e precariedade. O indivíduo desta época ganhou novos rostos: o do hedonista, movido por auto-celebração; o cidadão voluntarista e heróico; a vítima de problemas de identidade e o indivíduo estilhaçado, em busca de si. Todos correndo atrás do culto da felicidade. O bem estar tornou-se norma de vida. À infelicidade de não ser feliz, somou-se à vergonha de não se ter felicidade. Os conflitos da época, ganharam um novo olhar: o Estado-Nação, antes ator único na luta internacional, cedeu lugar a uma multiplicidade de atores que agem em função de registros políticos próprios: veja-se o Kosovo, o Congo, a Palestina. Assistiu-se a emergência de novas guerras ligadas à máfia das drogas ou ao terrorismo internacional. A Ética voltou à pauta: frente à corrupção e a venalidade propugnou-se a moralização da vida pública. Afinal, a boa ética não é a solução para a má política? O grande desafio destes tempos? Conciliar as políticas de reconhecimento da diferença com as de redistribuição de riquezas e, por meio delas aceder a uma existência feita de plenitude, significação e dinamismo.

Mary del Priore – sócia honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

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4 Respostas para “Um nome para este tempo

  1. boa noite…
    adorei o texto, instigante e cheio de temas vibrantes para quem deseja compreender os novos tempos… para além do saudosismo que renova, a emerita historiadora Mary del Priore exprime em poucas palavras o frisson e inquietude do nosso tema, parabens, abraço

  2. Bom Mary.

    Dar nome aos bois é um exercicio complicado, mas o que percebo nesse tempo é uma busca constante em alguns setores para se manter a chama acesa da ideia de identidade, frente ao desafio pós, trans, hiper (tantas variações) moderno que gera relativizações, consumidores em excesso, hedonismo, etc.. Enfim coisas que no final das contas não representam necessariamente o caminho para uma vida de real significado e completude.

  3. Wellington Amarante Oliveira

    Olá Mary, primeiramente parabéns pelo blog que, acabei de conhecê-lo. Achei muito interessante seu texto, mas tenho uma pequena ressalva, você escrreveu: – “As instituições religiosas entraram em declínio”. Você acredita mesmo nisso. Um dos grandes paradoxos de nossa época é a alta da fé mesmo com o avanço da ciência, o que foi contra todos os prognósticos dos racionalistas. Talvez a igreja católica diminuiu, mas o islamismo, as religiões protestantes, sem falar do boom evangélico, com seu grande expoente na IURD.

    É isso.
    Abraço

    • Olá, Wellington, desculpe a demora em responder, mas estive fora. Quis dizer que as “instituições” estão em crise, referindo-me aos cleros das mais diversas igrejas, mas, não a fé. A fé, como vc. bem diz, tem crescido e se transformado no que chamo de “difuso religioso”: ela está em toda a parte, mesclando inclusive influências e práticas diversas e consolidando-se em produtos religiosos: festas, shows, discos, cds, dvds, etc…Ao contrário do que Max Weber previu quando escreveu “O desencantamento do mundo”, assitimos hoje ao “reencantamento”, com Deus e deuses em toda a parte. A seguir…Forte abs.

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